E se um dia a madeira acabasse?
Meio AmbienteComo a ciência chilena está protegendo a sustentabilidade das florestas produtivas
O que aconteceria se deixássemos de ter madeira para construir nossas casas, fabricar móveis ou até mesmo papel e papelão? E se o desenvolvimento de fibras têxteis de origem florestal — uma alternativa cada vez mais valorizada pela indústria da moda sustentável — fosse interrompido?
A resposta parece saída de um pesadelo: sem recursos florestais renováveis, grande parte da infraestrutura básica da nossa vida cotidiana estaria em risco.
Por trás dessa ameaça silenciosa está o impacto crescente das mudanças climáticas. Com menos chuvas, mais ondas de calor, geadas extremas e o surgimento de novas pragas, as espécies florestais enfrentam desafios inéditos. Mas, na região do Biobío, uma parceria entre a Universidade de Concepción (UdeC) e a ARAUCO busca se antecipar a esse cenário.
A iniciativa consiste em uma plataforma pioneira de engenharia genética florestal, impulsionada pelo Centro de Biotecnologia da UdeC e pela Bioforest, o centro de P&D da empresa florestal.
Para a Dra. Rosario Castillo, diretora do Centro de Biotecnologia, essa colaboração não é nova — ela e sua equipe trabalham com a ARAUCO há mais de 20 anos —, mas agora ela se torna decisiva:
“Desde sua criação em 2005, o laboratório de genômica florestal tem trabalhado com grandes empresas, mas sempre com o mesmo foco: pesquisa aplicada. Buscamos que a ciência que fazemos tenha impacto na sociedade, na região e no país”, afirma.
A pesquisadora lembra como, nos últimos anos, o foco se deslocou para a sustentabilidade, a economia circular e a busca por soluções com menor impacto ambiental:
“Hoje não queremos apenas entender os genes de uma árvore; queremos que esse conhecimento se traduza em variedades mais resilientes, capazes de crescer em zonas com menos água ou resistir a doenças sem perder produtividade.”
Pelo lado da indústria, Sebastián Mandiola, gerente geral da Bioforest, resume com clareza:
“O nosso compromisso é garantir que as espécies florestais continuem existindo na Terra por muitas décadas. Não basta plantar uma floresta e colhê-la. Queremos garantir que essa floresta seja capaz de se regenerar e se adaptar a um clima em transformação.”
Visão de longo prazo
Mandiola destaca que uma das contribuições mais importantes da ARAUCO é justamente fazer a ponte entre a pesquisa científica e a realidade produtiva:
“Levamos às universidades demandas reais — como a necessidade de árvores que resistam à seca ou às geadas — e fazemos isso com investimentos de longo prazo. Um projeto florestal pode levar 20 anos para mostrar resultados, e poucas empresas estão dispostas a manter esse tipo de compromisso. ARAUCO está.”
Essa visão é compartilhada por Claudio Balocchi, líder de pesquisa florestal da Bioforest, que traz uma perspectiva técnica:
“Hoje, a ARAUCO é líder mundial em genética de pinus. Praticamente somos a única empresa que planta 100% de Pinus radiata com clones, o que representa o estado da arte da tecnologia florestal atual. Mas não podemos parar por aí: agora estamos avançando na edição do genoma e na seleção de genes, porque o futuro exige mais do que árvores produtivas — exige árvores resilientes.”
Balocchi alerta que os eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes:
“Não podemos aceitar que as árvores simplesmente cresçam menos quando chove pouco. Precisamos encontrar mecanismos fisiológicos que permitam que elas continuem crescendo mesmo com menos água — e também evitar que novas pragas destruam nossas melhores variedades. A genética pode salvar esses clones valiosos.”
As árvores do amanhã
A plataforma de engenharia genética florestal lançada pela UdeC e pela ARAUCO é única no Chile. Sua missão é ambiciosa: identificar genes com potencial de resistência ao estresse hídrico, validá-los em espécies modelo e transferir esse conhecimento para árvores como o pinus e o eucalipto — tudo isso enquanto forma capital humano de excelência em biotecnologia.
Sofía Valenzuela, diretora do laboratório de Genômica Florestal, explica:
“Queremos validar genes que confiram tolerância ao estresse hídrico, primeiro em plantas modelo como Arabidopsis e depois em espécies como o álamo e o eucalipto. A meta é, dentro de 5 a 10 anos, contar com uma plataforma capaz de gerar árvores mais saudáveis e produtivas, que possam crescer em condições cada vez mais exigentes.”
A essa explicação, a pesquisadora pós-doutoranda Paula Aguayo acrescenta:
“A ideia é que esses genótipos possam ser plantados em condições de estresse hídrico — por exemplo, em zonas de sequeiro — e que produzam a mesma ou maior quantidade de biomassa ou celulose do que outros genótipos que não tenham essa tolerância.”
A academia e o futuro
Além dos aspectos técnicos, a colaboração entre universidade e empresa também busca gerar um efeito social. Ximena Gauché, vice-reitora de Relações Institucionais da UdeC, destaca o papel formativo:
“Esperamos que esse trabalho impulsione a formação de capital humano avançado, por meio de teses, programas de pós-graduação e experiências colaborativas. A sustentabilidade exige profissionais comprometidos com os desafios do presente e do futuro.”
Para Mandiola, a colaboração é essencial nesse caminho:
“A academia pode avançar até certo ponto sozinha, e as empresas também. Mas, se caminharmos juntos, vamos mais rápido, com mais impacto e com mais valor para o país.”
Para os especialistas, o ponto central é que a ciência não deve apenas antecipar o colapso — ela deve nos conduzir a soluções para os cenários futuros.
Porque, se algum dia nos perguntarmos o que faríamos sem madeira, o ideal é que a resposta já esteja crescendo em nossos laboratórios.